TEXTO do curador Marcos Dana sobre a exposição The Mirror Method na Galeria Durex Arte Contemporânea – Rio de Janeiro – RJ, abril de 2009:

The Mirror Method

A mostra é composta por desenhos e projeções sobre esculturas cuja poética aborda questões relativas à identidade, percebidas na fronteira entre real e imaginário, A imagem do artista é dissecada e desdobra-se propondo a experiência de relações anatômicas entre manifestações afetivas e compartamentais do indivíduo. Na tênue linha divisória entre realidade e ficção, Mauro elabora composições num jogo representacional entre alquimia e estrutura cognitiva, sugerindo reflexões dentro de um contexto poético-científico.

Essa obsessão pelo corpo humano submetido a sucessivas autópsias tem início nos anos 90 e passou a ser o ponto nevrálgico para investigações poéticas no trabalho de Mauro Espíndola. O interesse foi multiplicado pela crescente veiculação na mídia sobre as conquistas tecnológicas que acompanharam a virada do século, momento em que o artista começou a construir objetos, instalações e vídeos dispostos a discutir clonagem, transplantes de órgãos, próteses inusitadas, efetuadas mediante técnicas e cuidados excêntricos em uma flutuação entre o fascínio e morbidez, êxito e frustração, vida e morte.

TEXT of Marcos Dana, curator of the solo exhibition The Mirror Method, at Durex Arte Contemporânea gallery, in Rio de Janeiro, on april 2009:

The Mirror Method

The exhibition is composed by drawings and projections on sculpture, a poetic addressed to issues concerning identity, perceived at the border between real and imaginary. The artist image is dissected, unfolding the experience of anatomical relations between affective and comportamental manifestations of the individual. In the tenuous line dividing reality and fiction, Mauro elaborates compositions in a representational game between alchemy and cognitive structure, suggesting reflections within a poetic-scientific context.

This human body obsession submitted to successive autopsies has its begginig in the 90’s and became the nerve point to poetic investigations in Mauro Espíndola’s work. The interest was multiplied by the increasing media coverage about technological achievements that accompanied the turn of the century, moment that the artist began to build objects, installations and videos willing to discuss cloning, organ transplants, unusual prostheses, done by technical and eccentrics ministrations, fluctuating between fascination and morbidity, success and frustration, life and death.

TEXTO do curador Alberto Saraiva , sobre a exposição auto_psy_lab, no Centro Cultural Oi Futuro – Rio de Janeiro – RJ, agosto de 2008:

auto_psy_lab

A obra de Mauro Espíndola aborda questões relativas à identidade, à construção de um ser. De onde provêm os componentes necessários para tal formação? E como? Parece-nos que cada indivíduo vai compondo uma paisagem interna a partir de outra externa que o torna capaz de ser junto com outros seres, dentro de um espaço e um tempo. Entretanto, parece-nos que a única possibilidade do ser é a incompletude, já que a identidade é uma dinâmica permanente.

Para realizar suas pesquisas o artista utiliza sua própria imagem, trazendo para si essa questão, seguida da elaboração de um universo muito singular composto por um vocabulário visual proveniente da Idade Média e do Renascimento, com elementos do teocentrismo e do antropocentrismo. O resultado é a criação de um laboratório “pseudocientífico” composto por um conjunto de anotações, imagens e objetos.

A anatomia interna e externa é abordada como camadas que vão da superfície para a profundidade do corpo; todavia o que promove o conjunto de imagens é indicar evidências para algo ainda mais denso que gera um clima psicológico permeado por planos subjetivos. Os desenhos, fotografias, vídeos e objetos se referem a anatomias cindidas, em que a ausência é fantasmática, e a presença é reticente. Aqui são possíveis autópsias psíquicas e dissecações do ser.

Mauro Espíndola vem criando conceitos como “auto_psy_lab” e “mirror method” que integram essa experiência pessoal sobre identidade. Trata-se de uma nomenclatura adicional que prevê meios investigativos para configurar este lugar de especulação do ser.

TEXT about solo exhibition auto_psy_lab, at Oi Futuro Cultural Center, in Rio de Janeiro, on august 2008, by the curator Alberto Saraiva:

auto_psy_lab

Mauro Espíndola works approches issues related to identity, the construction of a being. From where come the components needed to such formulation? And how? It seems that each individual composes an inner landscape from another that is external, making us able to be together with other human beings, within a specific space and time. However, it seems that the only way of being is the incompletude, since that identity is a permanent dynamic.

To acompplish his research, the artist uses his own image, bringing upon himself this question, followed by the development of a very unique universe composed by a Middle Age and Renaissance visual vocabulary, with elements of theocentrism and anthropocentrism. The result is the creation of a "pseudo" scientific laboratory composed by a set of notes, images and objects.

Internal and external anatomy is considered as layers ranging from surface to the depth of the body. However, what promotes the whole imagery is to indicate evidences to something even more dense that creates a psychological atmosphere permeated by subjective plans. Drawings, photographs, videos and objects refer to divided anatomies, where the absence is phantasmatic, and presence is reticent. Here are possible psychological autopsies and dissections of the being.

Mauro Espíndola has been creating concepts like "auto_psy_lab" and "mirror method" that are part of this personal experience about identity. It is a additional nomenclature that provides investigative means to set up this speculation place of the being.

TEXTO do curador Luis Cancel , sobre a exposição Victal & Sons, no Espaço Cultural Sérgio Porto – Rio de Janeiro – RJ, setembro de 2005:

Mauro Espíndola: O Alquimista do Pensamento

O desejo humano de preencher um vazio, seja este causado pela falta de amor, por se sentir velho, baixo, pobre demais, ou seja lá o que fizer parte de uma infinita lista de aspirações humanas, sempre estimulou a imaginação de filósofos, de cientistas, de médicos, de artistas e de profissionais de propaganda.

Este vazio também tem atraído charlatões e vigaristas que souberam rapidamente reconhecer o brilho da carência nos olhos da “presa”. Através de um certo jogo de truques ou de palavras sedutoras, eram capazes de fornecer uma solução imediata, pronta para atingir o objetivo desejado, deixando, por fim, a vítima na mesma condição inicial - ou ainda pior.

O alter ego de Espíndola, Dr. Victal, na melhor tradição do alquimista medieval e do publicitário da Madison Avenue, tem preparado seus elixires, poções e slogans para satisfazer as necessidades da humanidade moderna: Você quer o sucesso? Quer que aquele(a) jovem (insira aqui a sua preferência sexual) ame você? Precisa de uma vantagem nos negócios? Compre então uma das fórmulas do Dr. Victal e seus desejos se realizarão.

Assumindo o papel de um consciencioso arqueólogo, o trabalho de Espíndola dá a impressão de ter remexido e investigado os domínios do Dr. Victal, tirando a poeira e dando ao público mais uma vez a oportunidade de satisfazer seu desejo mais profundo - além de uma espiada na mente de um talentoso… Farmacêutico? Santo? Charlatão? Publicitário?

A estética do final do século 19 e começo do século 20 associada aos empreendimentos do Dr. Victal suscita-nos outras questões: houve êxito em suas práticas? O que foi feito de seus filhos? Essas poções extravagantes realmente funcionam?

Trata-se de um jogo inteligente, convincente em sua apresentação e em sua execução, além de uma maravilhosa oportunidade para o observador dar um passo atrás, refletindo sobre o quão sutil e universal tornou-se o ato de persuadir. Países do primeiro mundo na Europa, Estados Unidos ou Japão incorporaram as lições estratégicas do Dr. Victal, utilizando-as para vender de tudo, de carros à guerras para políticos. Nosso admirável cientista estava limitado pelos meios arcaicos - ele só contava com o poster para alcançar seu público - mas os marqueteiros de hoje tem um amplo arsenal com o qual alcançam suas metas: tv, rádio, cinema, out-doors, jornais e revistas e a onipresente Internet.

As ferramentas contemporâneas de persuasão e a sofisticação psicológica e behaviorista, que se aplicam a uma gama sempre crescente de procedimentos para mensurar o estímulo-resposta dos indivíduos analisados, deveria ser uma séria preocupação dos cidadãos em todas as democracias. A habilidade de manipular o público, mudar suas opiniões e alcançar um resultado específico deveria ser mais detalhadamente esmiuçada, caso as democracias desejassem sobreviver.

Uma análise atual da crescente literatura sendo produzida por pesquisadores para abordar as necessidades dos publicitários produziu este resumo executivo:

“O gênero tem sido e continua a ser uma das formas mais comuns de segmentação usada por profissionais de marketing em geral e publicitários em particular. Para implementar com sucesso essa estratégia de segmentação, os profissionais de marketing e os publicitários precisam entender como homens e mulheres processam a informação de marketing, avaliam os produtos e se comportam no mercado. O objetivo deste artigo é explorar as origens das diferenças de gênero observadas, fornecer uma análise crítica da literatura sobre o processo de informação entre homens e mulheres e discutir os desdobramentos de tais diferenças de gênero para o planejamento da mensagem de propaganda.”1

Dr.Victal ficaria orgulhoso de seus descendentes, em seus esforços para manipular seu público-alvo: os publicitários e uma legião de cientistas examinarão e medirão cada aspecto, deixando ao acaso muito pouco do resultado previsto. Os compradores desses sofisticados serviços, sejam eles bancos, fabricantes de automóveis, companhias telefônicas ou governos e partidos políticos, são limitados em suas aspirações apenas por suas contas bancárias. Quanto mais dispostos a pagar eles estiverem, maior será a sua possibilidade de sucesso.

Observando a instalação de Espíndola, o expectador vai sempre achar cômicos os esforços toscos de Victal & Sons, mas você vai achar graça se você aplicar seus insights na sua vida cotidiana? Você vai considerar hilariante começar a perceber o quanto susceptível todos nós somos, diante da enxurrada diária de estímulos que nos leva a participar da consumista sociedade da maioria dos países? Esta é uma perspectiva muito menos engraçada.

Num país emergente como o Brasil, onde a distribuição de renda é tão desigual, deveria a sociedade perseguir o modelo de consumo do Primeiro Mundo? Não pode haver um outro caminho que ajude a promover um auto-desenvolvimento, acompanhado de maior cooperação, fazendo surgir um desejo maior de ajudar segmentos da população nascidos na extrema pobreza? Podem as ferramentas de persuasão ser usadas para estes generosos objetivos? Quem pagará por isso?

Victal & Sons poderia muito bem desenvolver uma poção que desse aos visitantes desta exposição uma súbita clareza para ver seu país com novos olhos, mas, felizmente, para nós, o artista Mauro Espindola já preparou esta fórmula.

1. Putrevu, Sanjay. 2001. "Exploring the Origins and Information Processing Differences Between Men and Women: Implications for Advertisers." Academy of Marketing Science Review [Online] 2001
TEXT about solo exhibition Victal & Sons, at Espaço Cultural Sérgio Porto, in Rio de Janeiro, on september 2005, by the curator Luis R. Cancel:

Mauro Espíndola: Alchemist of Thought

The human desire to fill a void, whether that void is the lack of love, being too old, too short, too poor or anything else from an endless shopping list of desires, has always activated the imagination of philosophers, scientist, artists and the Ad man.

This void has also attracted charlatans and hustlers who are quick to recognize the glint of need in the eyes of the "mark" and through slight of hand or seductive words, they provide a "quick fix" that promises to deliver the desired goal but ultimately leaves the victim in the same condition - or worse.

Espíndola's alter ego, Dr. Victal, in the best tradition of the medieval Alchemist and the Madison Avenue advertiser, has prepared his elixirs, potions and catch phrases to meet the needs of Modern humankind: do you want success? Do you want that young [insert your sexual preference] to love you? Do you need an advantage in business? Then buy one of Dr. Victal's formula and your wishes will come true.

Acting the role of a dutiful archeologist, Espíndola's work gives the appearance of having scavenged through the remains of Dr. Victal's holdings, dusting them off, and giving the public once again the opportunity to fulfill their deepest desire - and a glimpse into the mind of a giffted... Pharmacist? Saint? Charlatan? Publicist?

The late 19th or early 20tn century aesthetic associated with Dr. Victal's endeavors leaves us with other questions as well: was he successful in his practice? What became of his sons?

Did those damn potions really work? It is a clever game, convincing in its presentation and execution and a wonderful opportunity for the viewer to step back and reflect on how much more subtle and pervasive the act of persuation has become. First World countries in Europe, the USA or Japan, have incorporated Dr. Victal's lessons and use them to sell everything from cars to wars to politicians. Our fine doctor was hampered by archaic media - he only had the poster to reach his audience - but today's marketers have a wide arsenal with wich to reach their "mark": television, radio, film, billboards, newspapers and magazines and the all pervasive internet.

The contemporany tools of persuasion and the sophistication of psychologist and behaviorist, who apply an ever-increasing array of procedures to measure the stimulus-response of their subjects, should be a grave concern to citizens of all democracies. The ability to manipulate the public, shift their opinios and achieve a specific result should be more closely scrutinized, if democracies wish to survive.

A recent review of growing literature being generated by researchers to address the needs of advertisers yielded this executive summary:

"Gender has been and continues to be one of the most common forms of segmentation used by marketers in general and advertisers in particular. To successfully implement such a segmentation strategy marketers and advertisers need to understand how men and women process marketing information, judge products, and behave in marketplace. The purpose of this article is to explore the origins of the observed gender differences, provide a critical review of the literature on the information processing differences between males and females, and discuss the major implications of such gender differences for advertising message design."1

Dr. Victal would be proud of his descendents, in their effort to manipulate their target audience, advertisers and their legion of scientists, will examine and measure every aspect, leaving very little of the anticipated outcome to chance. The purchasers of these sophisticated services, be they banks, car manufactures, telephone companies or governments and political parties, are only limited int their aspirations by their bank accounts. The more they are willing to spend, the greater their likelihood of success.

Examining Espínsola's installation the visitor will often smile at the crude efforts of Dr. Victal and his sons, but will you smile if you take your insights into everyday life? Will you smile when you begin to see how susceptible we all are on a daily basis to the barrage of stimulus that compels one to be a willing participant in the consumerist society of most nations? This is a much more sobering perspective.

In an emerging country like Brazil, where the distribution of income is so inequitable, should the society pursue the consumerist model of the Firts World? Can't there be another way that helps to promote greater self-improvement, greater cooperation, instills a greater desire to help segments of the population that are born into severe poverty? Can the tools of persuasion be used for these positive ends? Who will pay for that?

Dr. Victal & Sons might very well develop such a potion to give visitors the insight to look at their country with fresh eyes, but fortunately for us the artist Espíndola has already prepared that formula.

1. Putrevu, Sanjay. 2001. "Exploring the Origins and Information Processing Differences Between Men and Women: Implications for Advertisers." Academy of Marketing Science Review [Online] 2001

TEXTO da artista visual e curadora, Clarisse Tarran, sobre a exposição Victal & Sons na Escola de Artes Visuais do Parque Lage – Rio de Janeiro – RJ, julho de 2002:

“É o final dos tempos”, dizem os que crêem, “É o começo de uma nova era”, dizem os que descobrem.

Algumas abordagens envolvendo polêmicos avanços científicos no campo da ciência que possibilitam a manipulação da natureza humana, têm trânsito cada vez mais intenso na mídia. Reflexões a respeito de temas como a clonagem humana e transplantes inusitados podem produzir reações que vão do horror ao fascínio, da perplexidade à intolerância, nos levando a questionar a aparente infinita capacidade humana de transformar as regras do jogo da vida. É uma batalha que se dá nos campos da Ciência, da Moral, do Sagrado e do Desconhecido.

O projeto Victal & Sons procura materializar as conquistas científicas e tecnológicas voltadas à manipulação da vida por intermédio de imagens e objetos, que inclinam-se à manutenção de um clima denso e excêntrico. Dr. Victal é uma personagem que empresta seu nome a uma fictícia e extravagante indústria de Engenharia Genética e de Medicina, capaz de manipular as características de um indivíduo. Seus produtos, de aparência arcaica, conduzem inesperadamente a um cenário sem limitações científicas - onde tudo pode ser arranjado ou combinado.

Os avanços, as mazelas e as incertezas da manipulação biológica e estética metaforicamente elaborada pelo Dr. Victal, procuram fornecer questionamentos inquietantes sobre a vida contemporânea, fundamentalmente nos aspectos ético, moral e religioso, envolvidos no desenvolvimento de tais experiências.

TEXT about the solo exhibition Victal & Sons, at Parque Lage Visual Art School, in Rio de Janeiro, on july 2002, by Clarisse Tarran, visual artist and curator:

“It’s the end of times”, say those who believe, “It`s the beginning of a new era”, say those who discover.

Some approches involving controversial scientific advances that allow human nature manipulation, have increasingly intense media diffusion. Reflections regarding issues as cloning and unusual transplantation might produce reactions ranging from horror to fascination, from astonishment to intolerance, leading us to question the apparent endless human capacity to transform the rules of the game of life. It is a battle that takes place in the fields of Science, Morals, of the Sacred and the Unknown.

The project Victal & Sons intends to materialize scientific and technologic achievements aimed at life manipulation through images and objects, leaning to the maintenance of an atmosphere dense and eccentric. Dr. Victal is a character who borrows his name to a fictitious and extravagant industry for Genetic Engineering and Medicine, able to manipulate characteristics of an individual. Its archaic appearance products, unexpectedly lead to a scenario with no scientific limitation - where everything can be arranged or combined.

The advances, the wounds and the uncertainties of biological and aesthetic manipulation metaphorically elaborated by Dr. Victal, seek to provide disturbing questions about contemporary life, primarily on ethical, moral and religious aspects, involved in the development of such experiments.